Prêmio Especial 1996

XXI Semana de Portinari

Categoria: Adulto AZUL DE PORTINARI

 

Naquela manhã, acordei assustado. Por um átimo de descuido a Inspiração foi seqüestrada por um ligeiro Favônio. A notícia do seqüestro se espalhou rapidamente pelos meus neurônios. Em cada rodinha de neurônios, o assunto era sempre o mesmo: “seqüestraram a Inspiração”.

A Tristeza, a Ansiedade e a Angústia entraram em cena. De repente, uma serena Alegria surgiu do cosmo para aliviar nossa dor causada pela ausência da Inspiração:

__ Eu tenho uma pista!

Aquelas palavras proferidas com Alegria, alimentou a Esperança de Entusiasmo e Perseverança.

Com destino certo, batemos à porta do mundo real. Fomos bem recebidos pela Flora e Fauna. Uma cordial Abelha, amicíssima de todas as Flores, afirmou piamente que poderíamos contar com a ajuda dela em todas as instâncias:

__ Amiga abelha, estou a procura de minha Inspiração. Ela foi seqüestrada por um Favônio.

__ Eu conheço alguém que poderá ajudá-los. Sigam-me …

Eu, a Esperança e a Alegria pegamos uma carona com a Abelha, sentando-se nos polens recolhidos por aquele inseto tão sublime. O meu coração pulsava de Emoção a cada acrobacia realizado pela nossa amiga Abelha, ziguezagueando pelo ar puro de Brodowski.

Em questão de minutos, chegamos ao nosso destino.

Um lugar praticamente deserto! À nossa frente, na Solidão do vasto prado, havia um Ipê, sem cor, sem folhas. A Abelha aproximou-se dele e zuniu:

__ Oh! Ipê, amigo de todas as cores, acorde do seu sono profundo. Você é nossa única Esperança.

__ Mas, e eu? — protestou a Esperança, desaparecendo-se misteriosamente…

A voz sussurrante do Ipê, prosseguiu:

__ Você é nossa única Alegria.

__ E eu? — resmungou a Alegria, evaporando-se diante de meus olhos perplexos.

Subitamente, entre os galhos secos do Ipê floresceram uma quantidade inesgotável de flores verde-claro. O brio de cada nova flor exalava um perfume inigualável. Uma olência eloqüente espalhou-se pelo prado, tornando-o verdejante!

Do renovado Ipê-verde-claro, surgiu uma voz melíflua, com tom de Alegria e Esperança:

__ Faça o seu pedido!

Com um sorriso preso no semblante, em tom de um forte anseio, prenunciei:

__ Desejo do fundo de meu coração reencontrar minha amiga Inspiração. Ela foi seqüestrada por um Favônio.

__ Eu trarei a sua Inspiração de volta, somente com uma condição.

__ Qual a condição? — indaguei-lhe esperançoso.

__ Responda rapidamente, em poucas palavras: qual é o sentimento que está por trás desse forte anseio de se reencontrar com sua amiga Inspiração?

__ Sentimento? — indaguei absorto. __ É um sentimento de cores vivazes, de cores vibrantes, puro, etéreo e anelo.

A voz melíflua do Ipê-verde-claro, tonificada de sabedoria, deu o veredicto final:

__ Resposta correta, meu jovem! O único sentimento capaz de unir todas essas qualidades, é o Sentimento do imortal poeta e pintor: Cândido Portinari.

Momentaneamente, surgiu um ligeiro Favônio agitando as flores do ipê-verde-claro. As flores fortalecidas de uma peculiar olência começaram a despencar-se gradativamente, desprendendo-se dos galhos refletindo Esperança e Alegria.

__ Cadê a Inspiração? — indaguei preocupado.

O Favônio partiu repentino, abrindo espaço para uma Brisa serena que trazia suspenso no ar minha amiga Inspiração. Ela veio da cor do céu e substituiu o verde-claro do Ipê pelo azul mágico de Portinari.

Como neve, caíram sobre meu corpo, flores azuis de Portinari, formando um colossal tapete sobre o vasto prado.

É sublime!

Era um sonho …

P.S.: A literatura foi o meu primeiro encontro com Portinari. A inspiração da pintura levou-me à inspiração da literatura. O azul inigualável, único, pode ser contemplado nas manhãs de domingo. É como se fôssemos personagens da obra de Portinari observando a tinta, ainda fresca, no céu azul de Brodowski.

“Quanta coisa eu pintaria se pudesse

E soubesse ao menos a cor como a língua. “